Tradução de Friends and Enemies with Jeff Nyquist: The Case of the Internal Enemy: https://rumble.com/v3gb3pz-friends-and-enemies-with-jeff-nyquist-the-case-of-the-internal-enemy.html?e9s=src_v1_s%2Csrc_v1_s_o&sci=182fe9f0-911f-42ff-ae78-9cedb80cc08e
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Olá, eu sou Jeff Nyquist, e este é o Amigos e Inimigos. Hoje teremos, na primeira seção, o caso do inimigo interno.
Quando nos voltamos para o mais alto nível da política, nos deparamos com algo chamado o Grande Jogo (Great Game). Aqui, vemos grandes potências competindo por influência e controle. Esse jogo é frequentemente comparado ao xadrez, com cada lado realizando uma série de movimentos. Normalmente, trata-se de um jogo de peças pretas e brancas. Os jogadores desse jogo pensam em termos de prejudicar o inimigo, o que equivale a ajudar a si mesmos. Em outras palavras, este é um jogo de soma zero. É um jogo do tipo "eu ganho, você perde", em oposição ao jogo econômico liberal do "Vamos fechar um acordo para que ambos possamos ganhar".
Esse jogo às vezes é travado em campos de batalha, com exércitos, marinhas e forças aéreas. Mas também é travado de maneira mais sutil por espiões, sabotadores, infiltrados e agentes de influência.
Este é o General SS Walter Schellenberg, o mais jovem general da SS no Terceiro Reich e o favorito de Himmler. Schellenberg era muito inteligente e era um liberal enrustido (closet liberal), que escapou da forca em Nuremberg porque havia ajudado a salvar judeus e impedido uma possível invasão alemã da Suíça durante a guerra.
Na verdade, o General Schellenberg estava envolvido em uma espécie de guerra civil que grassava dentro do Terceiro Reich entre os subordinados de Hitler. Schellenberg era famoso por possuir uma mesa fortificada, isto é, uma mesa equipada com submetralhadoras de 9 mm embutidas e um interruptor que acionava essas armas para varrer seu escritório.
Alguém poderia perguntar por que Schellenberg instalaria armas na mesa de seu escritório. Vejamos a razão.
Este é Heinrich Müller, chefe da Gestapo de 1939 a 1945. Ele era responsável por caçar espiões soviéticos e ocidentais dentro do Terceiro Reich. O principal agrupamento de agentes soviéticos era uma rede da GRU conhecida como Orquestra Vermelha (Red Orchestra). Embora alguns dos agentes da Orquestra tenham sido capturados e torturados, a rede jamais foi completamente desmantelada. Na verdade, ela havia penetrado o Alto Comando Alemão e tinha acesso aos planos de batalha alemães, de modo que esses planos frequentemente chegavam à mesa de Stálin antes de chegarem às mesas dos principais generais alemães.
Observadores perspicazes dentro do governo alemão e do alto comando sabiam que a guerra estava perdida quando Hitler, de maneira insensata, declarou guerra aos Estados Unidos após o ataque japonês a Pearl Harbor. A sorte estava lançada. A força esmagadora da coalizão das Nações Unidas inevitavelmente destruiria a Alemanha.
Eis algumas das más notícias que a Alemanha sofreu na primavera de 1943: a destruição do Sexto Exército em Stalingrado; a perda de todo o território conquistado da Rússia em 1942; a derrota de Rommel em El Alamein; a derrota do agrupamento de exércitos do Eixo na Tunísia; a incapacidade da marinha italiana de manter o controle do Mediterrâneo; a incapacidade da Alemanha de repor suas perdas de aeronaves; o fracasso da campanha dos submarinos (U-boats) no Atlântico; e a política dos líderes Aliados de exigir rendição incondicional. Isso significava que não havia saída para a Alemanha.
Depois de todas essas más notícias, os agentes de Stálin ficaram livres para recrutar autoridades alemãs dispostas a colaborar. É aqui que nos deparamos com uma revelação surpreendente. O chefe da contrainteligência da SS, Heinrich Müller, tentou recrutar o chefe da inteligência externa da SS, Walter Schellenberg, para trabalhar para Stálin.
Segue um trecho das memórias de Walter Schellenberg publicadas após a guerra:
Depois de uma conferência policial, iniciou-se uma conversa estranha:
"Minhas primeiras suspeitas sérias quanto à sinceridade do trabalho de Müller contra a Rússia surgiram em decorrência de uma longa conversa que tive com ele na primavera de 1943, após uma conferência de adidos policiais destacados no exterior. Müller, com quem minhas relações se tornavam cada vez mais hostis, estava excepcionalmente correto e cortês naquela noite. Imaginei, por já ser muito tarde, que ele havia bebido quando disse que queria conversar comigo."
Ele começou a falar sobre a Orquestra Vermelha (Red Orchestra). Havia se dedicado intensamente a refletir sobre os motivos desses casos de traição e sobre o pano de fundo intelectual do qual eles se originavam.
Eis o que Müller disse a Schellenberg na tentativa de recrutá-lo. Estas são as palavras de Müller, conforme relatadas por Schellenberg em suas memórias:
"Você há de concordar comigo, suponho, com base em sua própria experiência, que a influência soviética na Europa Ocidental não existe apenas entre as classes trabalhadoras, mas também conquistou espaço entre as pessoas instruídas. Vejo nisso um desenvolvimento histórico inevitável de nossa época, sobretudo quando se considera a anarquia espiritual da nossa cultura ocidental, na qual incluo a ideologia do Terceiro Reich. O nacional-socialismo nada mais é do que uma espécie de esterco sobre esse deserto espiritual. Em contraste com isso, vê-se que, na Rússia, estão se desenvolvendo forças espirituais e biológicas unificadas e verdadeiramente intransigentes. O objetivo global comunista de uma revolução mundial espiritual e material oferece uma espécie de carga elétrica positiva ao negativismo ocidental."
Müller prosseguiu:
"Se perdermos esta guerra, não será por qualquer deficiência do nosso potencial militar. Será por causa da incapacidade espiritual de nossos líderes. Não temos líderes de verdade."
"Temos um líder, o Führer, mas isso é o começo e o fim da história. Olhe para a multidão logo abaixo dele, e o que você encontra? Todos brigando entre si, dia e noite. Hitler parece estar explorando esse estado de coisas para governar. É aí que reside sua maior falha. Não posso evitar, mas sou forçado cada vez mais à conclusão de que Stálin faz essas coisas melhor. Veja, com os russos, sempre se sabe exatamente onde se está. Ou eles cortam sua cabeça imediatamente ou o abraçam, mas conosco tudo é apenas meio tentado e meio realizado. Bormann é um homem que sabe o que quer."
Naturalmente, Müller estava se referindo a Martin Bormann, assistente do Führer, sobre quem falaremos mais adiante. Por que, ao tentar recrutar Schellenberg para trabalhar para Stálin, o chefe da Gestapo mencionou o nome de Martin Bormann?
Vejamos então o que Schellenberg começou a pensar a respeito disso. Segue um trecho de suas memórias:
"Naquela noite, eu estava sentado diante de Müller, profundamente pensativo. Ali estava o homem que conduzira a luta mais implacável e brutal contra o comunismo em todas as suas formas, o homem que, em sua investigação da Orquestra Vermelha, não deixara pedra sobre pedra. Fiquei espantado ao ouvir Müller expressar tais opiniões. Ele sempre dissera que Bormann não passava de um criminoso, e agora, de repente, havia essa mudança de atitude.
Eu ficava cada vez mais nervoso. Ele virava um conhaque após o outro e, em um bávaro vulgar, começou a insultar o decadente Ocidente e os líderes Göring, Goebbels, Ribbentrop e Ley, como se seus ouvidos devessem estar queimando. Mas Müller conhecia os detalhes mais íntimos sobre cada um deles."
A pergunta de Schellenberg era: aonde Müller queria chegar?
Mais uma vez, recorrendo às memórias de Schellenberg:
"O que queria aquele homem, tão cheio de amargura e ódio, que de repente falava como um livro? Era algo que eu jamais havia visto Müller fazer antes. Certa vez, para conduzir a conversa para um tom mais leve e jocoso, eu disse: 'Muito bem, camarada Müller, vamos todos começar dizendo Heil Stalin desde já, e nosso pequeno pai Müller se tornará o chefe da NKVD.'
Ele olhou para mim com um brilho malévolo nos olhos. 'Isso seria ótimo', respondeu com desprezo, em seu carregado sotaque bávaro, 'e você realmente estaria encrencado, você e seus amigos irredutíveis da SS.'"
Ao final dessa estranha conversa, eu ainda não conseguia compreender aonde Müller queria chegar, mas fui esclarecido alguns meses depois.
Conclusão: Schellenberg concluiu que o pensamento de Müller jamais havia sido nacionalista, mas comunista. Novamente, em suas memórias:
"Quem sabe quantas pessoas ele, Müller, influenciou naquela época e atraiu para o campo oriental", isto é, o campo comunista. "Müller sabia perfeitamente que não havia causado qualquer impressão em mim, que a trégua que havíamos estabelecido apenas para aquela noite havia terminado. Descobri, no final de 1943, que ele havia estabelecido contato com o Serviço Secreto Russo, de modo que, além de sua antipatia pessoal, eu tinha de levar em conta a inimizade objetiva de um fanático."
A principal conclusão: Müller colaborava estreitamente com Martin Bormann, secretário pessoal de Hitler.
Agora estamos falando de inimigos internos. Estamos falando de traidores. Esta é uma fotografia do Reichsleiter Martin Bormann, secretário de Hitler e administrador de fato do Partido Nazista. Atualmente, é amplamente aceito por muitos historiadores e profissionais da inteligência que Martin Bormann era um agente de Stálin.
Pense nisso por um momento. O principal homem de confiança de Hitler era um agente soviético. Pense nas manobras, na habilidade e na intriga necessárias para colocar Martin Bormann na posição de secretário de Hitler. Pense no chefe da Gestapo, General Müller, sendo um agente soviético e dando cobertura a Bormann. Pense no grau de controle que eles estavam adquirindo dentro do Terceiro Reich.
Após a Batalha de Stalingrado, depois da derrota do Sexto Exército, após o desastre representado pela derrota de Rommel em El Alamein e pela destruição do Quinto Exército Panzer alemão e do Afrika Korps na Tunísia, à medida que o Exército Vermelho avançava cada vez mais em direção à Alemanha, esses homens — Heinrich Müller e Martin Bormann — conquistaram cada vez mais poder sobre o governo ao redor de Hitler. Eles passaram a exercer um controle cada vez maior sobre o próprio Hitler. Ainda assim, não encerraram a guerra. Eles queriam que a guerra continuasse para que os exércitos de Stálin pudessem alcançar o coração da Europa.
Você sabe, a principal queixa de Stálin ao final da guerra era que seus exércitos não haviam chegado a Paris, como os exércitos do czar Alexandre haviam chegado em 1814.
Este é o Almirante Wilhelm Canaris, brilhante oficial de inteligência naval e chefe da Abwehr, o serviço de inteligência militar alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Canaris foi enforcado por ordem de Hitler no final da guerra, porque Hitler percebeu que ele vinha trabalhando contra o Führer havia muitos anos.
Enquanto isso, em Moscou, os chefes da GRU e da NKVD temiam Canaris. Ele era um anticomunista. Eles não conseguiam compreendê-lo. Era um homem honrado que não apenas tentou derrubar Hitler, mas também trabalhava contra os comunistas.
Eis uma citação do vice de Canaris, o chefe da seção Foreign Armies East, General Reinhard Gehlen:
"O almirante Canaris veio ao meu quartel-general em Angerburg e, durante uma longa conversa, indicou quem ele suspeitava ser o traidor dentro do Terceiro Reich."
O que Canaris me contou dizia respeito a Martin Bormann, que desde o início de 1943 era secretário pessoal de Hitler e chefe da organização do Partido Nazista. Martin Bormann estava manipulando Hitler em nome de Stálin.
Isso fica muito claro no livro do jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer Louis Kilzer, autor de Hitler’s Traitor.
Eis o que Kilzer escreveu sobre Bormann e seu papel em incitar Hitler:
"Desde que Hess voou para a Escócia, em maio de 1941, o papel de Bormann expandiu-se de forma geométrica. Posteriormente, os promotores de Nuremberg o descreveriam como um dos principais responsáveis pelo programa de fome, degradação, espoliação e extermínio dos judeus."
A influência de Bormann sobre Hitler havia se tornado onipresente. Houve não apenas pogroms contra os judeus, mas também contra os eslavos, e Martin Bormann ajudou a arquitetar esses programas porque eles beneficiavam Stálin. Muitos russos queriam lutar contra Stálin, mas cada atrocidade, cada pogrom, empurrava russos, bielorrussos e ucranianos para os braços de Stálin. Martin Bormann facilitou esse processo.
Aqui vemos o General soviético Vlasov, que desertou para o lado alemão. Suas tropas eram compostas por russos que queriam lutar contra o comunismo, mas jamais tiveram essa oportunidade, porque Hitler não confiava em russos vestindo uniformes alemães. Graças a Martin Bormann.
Após a guerra, o historiador militar britânico John Fuller afirmou que Hitler perdeu a guerra porque maltratou russos e ucranianos que teriam lutado de bom grado ao seu lado. Schellenberg e Gehlen, ambos profissionais da inteligência, relataram que os pogroms contra os eslavos se mostraram benéficos para Stálin. Eles atraíram sobre si a ira de Martin Bormann por defenderem apoio ao Exército de Libertação da Rússia (All-Russian Liberation Army) do General Vlasov.
Aqui está o General Gehlen. Eis o que ele escreveu sobre a descoberta decisiva feita pelo Almirante Canaris em 1943: "Canaris não possuía provas da traição de Martin Bormann. Nossas suspeitas foram confirmadas posteriormente quando, de forma independente uns dos outros, descobrimos que Bormann e seu grupo operavam uma rede de transmissores de rádio não supervisionada e a utilizavam para enviar mensagens codificadas a Moscou."
Observe esta fotografia de Martin Bormann. Veja como ele está estudando o rosto de Hitler. Bormann estava manipulando Hitler. Ele o conduzia, pouco a pouco, a tomar decisões que, em última análise, beneficiariam Joseph Stálin.
Hitler desconfiava dele? Será que Hitler acabaria percebendo?
Bormann era contrário a oferecer paz aos Aliados, mas era favorável à paz com Stálin. No final de 1944, Bormann incentivou Hitler a empregar todas as suas divisões Panzer contra os americanos, no que ficou conhecido como a Batalha das Ardenas (Battle of the Bulge). Isso beneficiou Stálin e prejudicou os americanos, e Bormann foi o principal arquiteto da Internacional Nazista do pós-guerra.
Os principais pontos a serem lembrados sobre Bormann estão listados aqui, e não devemos esquecer quem Martin Bormann realmente era.
Eis o que o historiador Lewis L. Schneider disse sobre Bormann:
"Bormann era, de fato, o poder por trás do trono de Hitler. Sob sua aparência pouco impressionante escondia-se o manipulador clássico, o anônimo caçador de poder que atuava em segredo e superava todos os seus rivais em manobras, buscando sempre ter acesso aos ouvidos de Hitler."
E eis o que o General Franz Halder disse sobre os fracassos da inteligência militar alemã durante a Segunda Guerra Mundial:
"Quase toda operação ofensiva nossa era traída ao inimigo antes mesmo de chegar à minha mesa."
Agora, para colocar Martin Bormann em perspectiva, devemos considerar que ele não era o único agente de Stálin em posições de alto escalão.
Nesta fotografia, vemos o presidente Franklin Delano Roosevelt ao lado de seu amigo e copresidente, Harry Hopkins. Muitos pesquisadores acreditam que Hopkins era um agente soviético — na verdade, o Agente Soviético nº 19 — e que trabalhou para Stálin durante toda a guerra.
Nos diários do Major Jordan, onde lemos sobre materiais destinados à fabricação de uma bomba atômica sendo enviados à União Soviética, descobrimos que Hopkins era o responsável por isso. Quando agentes soviéticos foram identificados infiltrando os laboratórios do Projeto Manhattan nas proximidades de Berkeley, Califórnia, Hopkins foi avisar os soviéticos de que o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, havia descoberto a infiltração.
Estaria Stálin manipulando Franklin Delano Roosevelt ao mesmo tempo em que manipulava Hitler por meio de agentes de influência? Seriam Harry Hopkins e Martin Bormann esses agentes de influência?
A principal conclusão de tudo isso é que Moscou não trava guerra contra você apenas com exércitos. Moscou infiltra o seu governo, manipula seus líderes e manipula o seu processo de formulação de políticas.
Quando se lê a literatura daqueles que suspeitam da atuação desses manipuladores, encontra-se uma literatura repleta de nomes famosos, como Harry Dexter White, do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos; Alger Hiss, do Departamento de Estado; ou o General Walter Bedell Smith, diretor da CIA durante o governo Harry Truman, que passou a ser suspeito de atuar como agente soviético em 1953.
O senador Joseph McCarthy era louco por suspeitar da lealdade do General George Marshall? E quanto a Walt Rostow e Henry Kissinger, que foram alvo de acusações ou mantiveram contatos com comunistas? E quanto a Bill e Hillary Clinton? E quanto a Barack Obama, que foi orientado por Frank Marshall Davis, membro oficialmente filiado ao Partido Comunista dos Estados Unidos (Communist Party USA)? E, por fim, o que dizer de Joe Biden?
Talvez estejamos diante de um problema muito sério, porque os russos obtiveram enorme sucesso durante a Segunda Guerra Mundial. Eles demonstraram saber como posicionar pessoas-chave ao lado de presidentes, ou talvez até mesmo dentro da Casa Branca ou da Chancelaria Alemã. A Ucrânia e a guerra na Ucrânia podem, em última análise, depender mais de espiões em Washington e Berlim do que dos exércitos russos.
Com isso, faremos um intervalo comercial. Agradeço a todos por ouvirem, e continuaremos na segunda parte.
Nosso objetivo deve ser defender a sociedade de seus inimigos. Mas quem são seus inimigos? Como pode uma sociedade que não concorda em praticamente nada, cuja diversidade deve ser inclusiva para todos, defender a si mesma? Para responder a essa pergunta, leia O Tolo e seu Inimigo, de J. R. Nyquist, disponível na Amazon.
Eu sou Jeff Nyquist. Este é Friends and Enemies. Esta é a segunda parte.
Na primeira parte, tratamos dos inimigos internos, dos inimigos internos subversivos. Agora vamos examinar a grande estratégia e as táticas dos inimigos da América. O panorama mais amplo, concebido e analisado.
Antes de tudo, precisamos pensar no impensável.
Clausewitz:
"A guerra é um ato de violência levado ao seu extremo."
Johann Wolfgang von Goethe:
"Poucas pessoas possuem imaginação suficiente para compreender a realidade."
Agora, o Marechal da União Soviética V. D. Sokolovsky:
"Do ponto de vista dos armamentos, uma terceira guerra mundial será uma guerra de mísseis e armas nucleares. O emprego maciço de armas nucleares tornará a guerra sem precedentes em seu poder destrutivo e devastador. Estados inteiros serão apagados da face da Terra."
Voltando por um momento a Gorbachev, deparamo-nos com uma falha de imaginação. O colapso do comunismo — de verdade? Eles mesmos arriaram a bandeira. Pense nisso por um instante. Ali está Boris Yeltsin, membro do Politburo. Ali está Mikhail Gorbachev, Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética, presidente da União Soviética. Ele próprio vai arriar a bandeira vermelha com a foice e o martelo do Kremlin. Ninguém apontando uma arma para sua cabeça. Nenhuma derrota em uma guerra. Ele simplesmente está retirando a bandeira.
Esta é a imagem da queda do Muro de Berlim, em 1989, com toda aquela multidão presente. Ora, aquilo aconteceu. Foi um acontecimento espontâneo, mas, de acordo com documentos obtidos pelo dissidente russo Vladimir Bukovsky, eles já estavam planejando derrubar o Muro de Berlim de qualquer maneira, um ou dois dias depois. Antes disso, os passaportes já estavam prontos. Não era grande coisa. O que os surpreendeu foi o fato de ter acontecido daquela forma.
"E daí?" Bem, muitas coisas deram errado quando a União Soviética caiu; nem tudo ocorreu conforme o planejado. Refiro-me ao plano de liberalização do próprio Partido Comunista, conduzido por Mikhail Gorbachev.
O que ele estava fazendo? Estava liberalizando a União Soviética.
Portanto, precisamos corrigir essa falha de imaginação. Vou ajudar nisso agora, porque, quando imaginamos amigos e inimigos, pensamos: "Ah, eles não são mais comunistas; agora são nossos amigos, certo?" Afinal, se o nosso amigo Carl Schmitt, autor de O Conceito do Político, estiver certo, a distinção entre amigo e inimigo é a distinção decisiva.
Muito bem. Russos e chineses, não sendo mais comunistas, agora são nossos amigos. Estão apenas fazendo negócios.
Mas espere um momento. Há tropas cubanas, russas e chinesas na Venezuela socialista. Cuba é um país comunista. Eles nunca esconderam isso; pelo contrário, sempre o admitiram plenamente. A China também é. O que a Rússia está fazendo nessa combinação?
Estas são tropas russas — tropas russas de defesa antiaérea ou marinheiros russos — desfilando em Caracas, na Venezuela.
O que é isso?
Agora temos Xi Jinping e Vladimir Putin. Eles representam a Rússia e a China, e agem como um só, como um punho cerrado.
O desertor Anatoliy Golitsyn, major da KGB, afirmou que China e Rússia planejavam unir-se no futuro, após a liberalização da União Soviética e após a queda do Pacto de Varsóvia. Ele disse que os dois países se tornariam aliados estreitos, o que de fato aconteceu. E afirmou que esse seria o momento em que o equilíbrio de poder mundial passaria para o bloco comunista.
E ali estão eles, lado a lado. Que cena.
Agora, o que estou prestes a sugerir — desculpe, senhor Camelo — é controverso. Nada de cuspir durante a apresentação. Não será o que vocês esperam, embora algumas pessoas que já sabem o que vou dizer provavelmente pensem: "Ah, sim, já sabemos o que ele vai dizer." Mas nada de cuspir, nada de contradizer. Esvaziem a mente. Finjam que não sabem de nada. Procurem olhar para isso sob uma perspectiva nova, porque a imaginação costuma nos pregar peças.
Muito bem, voltemos a essa questão da falha de imaginação.
Na sua imaginação, Reagan venceu a Guerra Fria, certo? Mas Reagan retirou os mísseis Pershing da Europa. Desenvolvemos a Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI) e levamos os soviéticos à bancarrota, mas nunca chegamos a construir a SDI e acabamos ajudando Moscou.
Os russos perderam a guerra no Afeganistão, e isso os destruiu, mas os representantes muçulmanos da Rússia, Ahmad Shah Massoud e Rashid Dostum, tomaram Cabul das mãos de Najibullah.
As razões normalmente apresentadas para nossa vitória na Guerra Fria pertencem ao campo da mitologia. Vamos refletir sobre essa ideia por um momento.
Vamos?
O que é credulidade? Credulidade é acreditar que um dos partidos governantes mais implacáveis, corruptos, assassinos e cínicos de toda a História simplesmente abriu mão do poder de forma voluntária. Sem lutar.
Entenderam?
Conseguem perceber aquela piscadela que ele está dando para vocês?
Agora vou falar sobre a estratégia soviética e o Comitê Brezhnev. A grande estratégia soviética. Uau, que conceito.
A estratégia soviética foi atualizada entre o outono de 1956 e a primavera de 1957 por um comitê dirigido por Leonid Brezhnev, em razão da revolução na arte da guerra provocada pelo advento da bomba de hidrogênio e da tecnologia de foguetes.
O subcomitê militar era chefiado pelo Marechal V. D. Sokolovsky; o subcomitê da indústria militar, por Dmitriy Ustinov; o subcomitê de assuntos externos, por Boris Ponomarev; e o subcomitê de inteligência era liderado por Nikolai Mironov.
Quero que vocês guardem esses nomes. Brezhnev não apenas se tornaria uma figura muito importante mais tarde — após a queda de Khrushchev, em 1964, ele se tornaria Secretário-Geral do Partido Comunista —, como também o Marechal Sokolovsky viria a editar um livro intitulado Estratégia Militar Soviética, enquanto Nikolai Mironov passaria a discutir com seus colegas uma concepção baseada em Sun Tzu. Veremos adiante como essas duas abordagens se articulam.
Agora, vejamos algo sobre Sokolovsky e suas ideias de estratégia.
Sokolovsky era um estrategista extraordinariamente brilhante. Foi o responsável pelo plano de guerra soviético no verão de 1944, que destruiu o Grupo de Exércitos Centro (Army Group Center) da Alemanha. Provavelmente, foi a operação militar mais perfeitamente executada pelos soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial.
Sokolovsky era seguidor de Carl von Clausewitz, a quem citamos no início desta parte do episódio. Prestem bastante atenção à concepção de estratégia de Clausewitz:
"Os filantropos podem facilmente imaginar que exista um método engenhoso de desarmar e vencer um inimigo sem grande derramamento de sangue, e que essa seja a verdadeira tendência da arte da guerra. Por mais plausível que isso possa parecer, trata-se de um erro. É um erro que deve ser desmascarado, pois, em algo tão perigoso quanto a guerra, os erros decorrentes de um espírito de benevolência são os piores."
Aqui está o manual de Sokolovsky para a Terceira Guerra Mundial, uma atualização de Clausewitz. Sim, trata-se do emprego da força levada ao máximo, exatamente como acabamos de ouvir.
Eis uma citação:
"As armas estratégicas modernas tornam possível alcançar resultados decisivos na conquista da vitória em uma guerra, às vezes até mesmo sem recorrer às forças táticas e de campanha e aos seus armamentos."
O manual de Sokolovsky para a Terceira Guerra Mundial prossegue: mísseis, mísseis, mísseis. A vitória por meio do bombardeio nuclear.
"Em uma guerra de mísseis, os principais objetivos e missões da guerra serão cumpridos pelas forças estratégicas de mísseis, que desferirão ataques nucleares maciços. As forças terrestres, em conjunto com a aviação, desempenharão importantes funções estratégicas."
O general da KGB Nikolai Mironov não via a estratégia da mesma forma que V. D. Sokolovsky, Marechal da União Soviética. Nikolai Mironov não era seguidor de Clausewitz. Era seguidor de Sun Tzu, que afirmava que toda guerra se baseia no engano.
Eis uma citação de Sun Tzu:
"A suprema excelência consiste em derrotar a resistência do inimigo sem combater."
Isso é o oposto do que Clausewitz dizia. Na verdade, Clausewitz afirmava que essa ideia era um erro que precisava ser erradicado.
Nikolai Mironov, como discípulo de Sun Tzu, tornou-se o principal estrategista da estratégia da KGB: a estratégia da desinformação, a estratégia do engano, a grande estratégia soviética de engano.
E esta é uma citação do desertor da KGB Anatoliy Golitsyn, extraída de seu livro New Lies for Old, publicado em 1984. Ele escreveu:
"Em 1958, Mironov e Shelepin, que na época era o chefe da KGB, discutiram com Khrushchev e Brezhnev a ideia de transformar a KGB em uma arma política flexível e sofisticada a serviço da política do Estado, como ocorrera durante a NEP."
A NEP foi a Nova Política Econômica de Lênin, período em que a União Soviética fingiu — ou efetivamente realizou — um recuo em direção ao capitalismo, utilizando isso politicamente para abrir relações com os países ocidentais e estabelecer uma posição dentro deles.
Agora, no que diz respeito à falsa liberalização que seria necessária para uma segunda NEP, Golitsyn escreveu:
"A liberalização no Leste Europeu provavelmente envolveria o retorno ao poder, na Tchecoslováquia, de Dubček e de seus associados. Caso fosse estendida à Alemanha Oriental, poderia ser considerada a demolição do Muro de Berlim."
Pensem em um dos primeiros slides que vimos, mostrando a queda do Muro de Berlim. Toda a ideia da estratégia de engano é que, segundo o livro de Golitsyn publicado em 1984, Mironov e Shelepin já pensavam em termos de um futuro processo de liberalização e do colapso da União Soviética.
Esse é um ponto que realmente precisamos manter em mente. A defesa da estratégia de engano por Mironov é descrita por Golitsyn nos seguintes trechos:
"Uma liberalização em escala mais ampla na União Soviética e em outros países produziria um efeito ainda mais profundo do que aquele ocorrido na década de 1920, sob Lênin."
"Os tchecoslovacos poderiam muito bem tomar a iniciativa, juntamente com os romenos, de propor a dissolução do Pacto de Varsóvia."
Isso, de fato, ocorreu no caso dos tchecos, dos poloneses e dos alemães orientais.
"Após o uso bem-sucedido da estratégia da tesoura (scissors strategy) nos estágios iniciais da fase final da política, seria de se esperar uma reconciliação sino-soviética."
Agora, lembrem-se das imagens que vimos de Putin e Xi Jinping juntos. Essa reconciliação está prevista e implícita tanto na política de longo prazo quanto na estratégia de desinformação referente à cisão sino-soviética.
Não consigo deixar de fazer um comentário sobre a síntese produzida pelo Comitê Brezhnev, a dialética do comitê.
A tese é a tese Sokolovsky-Clausewitz: preparar-se para travar e vencer uma guerra nuclear.
A antítese é: não, não queremos travar uma guerra nuclear. Queremos evitá-la por meio de uma futura liberalização da URSS, isto é, por meio de uma política de engano de longo prazo.
A síntese consiste em utilizar ambas: integrar tanto a preparação para uma guerra nuclear quanto a preparação para uma estratégia de engano de longo alcance.
Para enfatizar esse ponto: você se prepara para uma guerra nuclear e, ao mesmo tempo, engana o inimigo, levando-o a acreditar que você já não é comunista, que deixou de representar uma ameaça, que agora é apenas o Boris bêbado e a descontraída Federação Russa. Essa é a estratégia soviética para a Guerra Fria.
Você prepara cuidadosamente esse engano para que o Ocidente se desarme e deixe de renovar seus arsenais nucleares, enquanto o Oriente — China e Rússia — seja visto como dividido, quando, na realidade, permanecerá unido. Assim, poderá inverter o equilíbrio estratégico em relação ao Ocidente.
Isso também me faz lembrar de uma passagem de Maquiavel em O Príncipe. Maquiavel escreveu que os príncipes eram educados pelos centauros. Na mitologia, um centauro é metade homem, metade fera. Isso significa que os príncipes devem ser capazes de agir como seres humanos, mas também devem saber agir como feras.
E, entre as feras, dizia Maquiavel, eles precisam saber ser um leão para afugentar os lobos e uma raposa para evitar armadilhas. Esse seria o governante ideal: parte homem, parte leão e parte raposa.
O zeitgeist estratégico do Ocidente — primeira parte:
Muito engraçado, Boris.
Trecho de Generation P, de Victor Pelevin, no qual ele retrata as transformações da União Soviética vistas pelas telas dos apresentadores de televisão:
"Enquanto isso, a televisão continuava exibindo as mesmas fisionomias repulsivas que vinham causando náuseas aos telespectadores havia vinte anos. Agora, elas diziam exatamente as mesmas coisas pelas quais antes mandavam outras pessoas para a prisão, só que de forma muito mais ousada, muito mais decidida e muito mais radical."
Tatarsky imaginou a Alemanha em 1946, com o Dr. Goebbels gritando histericamente no rádio sobre o abismo para o qual o fascismo havia conduzido a nação; com o antigo comandante de Auschwitz presidindo a comissão encarregada da detenção de criminosos nazistas; e com generais da SS explicando a importância dos valores liberais.
Zeitgeist estratégico — segunda parte.
É um novo tipo de circo.
O inimigo: os gases de efeito estufa.
"Hoje, não existe ameaça maior ao nosso planeta do que a mudança climática."
O zeitgeist do regime do shopping center:
"Eu não sou mau; apenas estou à frente da curva."
Cinco princípios estratégicos:
1 - Se alguém quiser matá-lo, negocie com essa pessoa.
2 - Não se preocupe: ditadores criminosos sempre cumprem sua palavra.
3 - Se eles quebrarem a palavra, finja que não quebraram.
4 - Se quiserem armas nucleares, dê-lhes dinheiro ou acordos comerciais em vez disso.
5 - Não se preocupe: eles não construirão armas nucleares com o dinheiro que você lhes deu.
O que tudo isso significa:
A inimizade é um conceito ultrapassado porque:
Um, A Guerra Fria terminou e nós vencemos.
Dois, O islã é uma religião de paz.
Três, A China é um parceiro comercial confiável.
Quatro, Não precisamos construir nem manter armas nucleares.
Cinco, Não precisamos de fronteiras, muros de fronteira ou sequer cercas.
Seis, O mundo pode ser um só, como na canção de John Lennon.
Agora, vamos lembrar a todos da distinção entre amigo e inimigo, a primeira regra da política e da grande estratégia.
Eis um trecho de O Conceito do Político, de Carl Schmitt:
"A substância do político está contida no contexto de um antagonismo concreto. Palavras como Estado, república, sociedade, classe, bem como soberania, são incompreensíveis se não se souber exatamente quem deve ser atingido, combatido, refutado ou negado por meio de tal termo.
Ao conceito de inimigo pertence a possibilidade sempre presente do combate. A guerra é a negação existencial do inimigo. Ela constitui a consequência mais extrema da inimizade.
Todos os conceitos, imagens e termos políticos possuem um significado polêmico. Eles estão orientados para um conflito específico e vinculados a uma situação concreta, cujo resultado é um agrupamento entre amigos e inimigos, transformando-se em abstrações vazias e fantasmagóricas quando essa situação desaparece."
Portanto, no contexto dessa estratégia de engano, estamos lidando simultaneamente com a preparação para uma guerra nuclear e com uma estratégia de desinformação.
Estamos lidando com um inimigo — e um inimigo extremamente letal —, um inimigo que deseja cegá-lo, enganá-lo e iludi-lo; um inimigo que estava disposto a atacá-lo com armas nucleares porque está construindo um arsenal nuclear.
É isso que devemos manter em mente ao desenvolver nossa análise: um conceito político sem o seu respectivo inimigo.
Esse sujeito, Georgi Arbatov, veio ao campus da minha universidade, a UC Irvine, em 1988, para participar do nosso colóquio de ciência política, onde proferiu uma palestra em dezembro daquele ano. Foi isto que ele disse na UC Irvine, em 1988.
Arbatov havia sido assessor de Stálin. Era diretor do Instituto de Estudos dos Estados Unidos e do Canadá da União Soviética. E foi isto que declarou:
"Nossa principal arma secreta é privá-los de um inimigo."
Vou repetir:
"Nossa principal arma secreta é privá-los de um inimigo."
Ele não disse que eles já não eram mais nossos inimigos. Tanta coisa havia sido construída em torno dessa figura do inimigo. Para se ter um império realmente bom, era preciso haver também um império realmente mau.
"O que importa agora não é o equilíbrio de poder, mas o equilíbrio de interesses."
Portanto, foi antes da queda do Muro de Berlim que Georgi Arbatov foi à minha universidade e afirmou: "Vamos eliminar a imagem do seu inimigo."
Sabe, desde quando existe "paz em nosso tempo"? Todo mundo acreditou que o fim da Guerra Fria era como o fim da História. Nada mais de coisas ruins. Nada mais de guerras.
Mas eu os lembro de que as portas do Templo de Jano raramente permaneciam fechadas. Essa é uma citação de Plutarco.
As portas do Templo de Jano só eram fechadas quando havia paz no Império Romano. Na República Romana, porém, raramente havia paz. Raramente.
Então, voltando à história dos leões, das raposas e de tudo isso: quando o leão se deita ao lado do cordeiro... bem, o que há de errado com essa imagem? Não é mesmo? É hora do almoço. É a hora decisiva.
Portanto, desculpe, seu palhaço triste: não era isso que você imaginava. Não é o fim da História, Francis Fukuyama, apesar de tudo o que foi dito em contrário. A piada era com você.
E essa é uma lição muito importante que precisamos aprender. Muitas pessoas se deixaram convencer com enorme facilidade daquilo em que desejavam acreditar. Queriam acreditar que não existia nenhum propósito superior, nenhuma estratégia por trás do que Gorbachev estava fazendo; que Gorbachev já não era realmente um comunista; que havia traído seu país, a União Soviética.
Não. Sinto muito, mas não vivemos uma "paz em nosso tempo".
E agora vemos, no ano de 2023, que realmente não vivemos. Neste exato momento, uma grande guerra está em curso na Europa.
Portanto, seja este homem, Neville Chamberlain, à esquerda, confiando neste homem, Adolf Hitler, à direita, seja George W. Bush confiando no ex-tenente-coronel da KGB Vladimir Putin, trata-se do mesmo jogo. É o mesmo erro. Você está sendo enganado. Tudo isso diz respeito à estratégia.
Quando você acredita em um comunista, isso nunca termina bem.
Franklin Delano Roosevelt e Stálin em Ialta: terminou bem?
Nixon abre o Ocidente para a China: terminou bem? Basta observar as guerras comerciais entre a China e os Estados Unidos.
Não. Mais uma vez, o cordeiro virou almoço.
E o que significou, nesse contexto, a queda do Muro de Berlim?
Angela Merkel, que foi a chanceler mais longeva da Alemanha, tinha uma trajetória curiosa. Ela não era alemã-ocidental; era alemã-oriental. Também não fazia parte de nenhuma organização conservadora cristã, embora tenha se tornado, de forma misteriosa, líder da União Democrata Cristã na Alemanha reunificada.
Ela foi dirigente da organização da juventude comunista da Alemanha Oriental, a versão comunista dos Jovens Pioneiros, dos escoteiros — os escoteiros comunistas da Alemanha Oriental.
E ali está ela, destacada pelo círculo vermelho nesta fotografia.
Assim, o colapso da União Soviética e o colapso do Pacto de Varsóvia não significaram apenas o colapso do comunismo. Significaram também um processo pelo qual estruturas comunistas passaram a se incorporar ao Ocidente, enquanto pessoas oriundas do comunismo assumiam a identidade de conservadores e se inseriam nas estruturas ocidentais.
Pessoas como Bill Clinton, Angela Merkel, Emmanuel Macron, na França. O número dessas pessoas é bastante grande.
Em 1982, um importante desertor comunista tcheco, um dos mais altos dirigentes da Tchecoslováquia comunista, escreveu um livro. Nesse livro, havia uma seção dedicada à estratégia futura do bloco comunista.
Ele escreveu:
"A erosão da OTAN, iniciada na segunda fase da estratégia de longo prazo, seria concluída pela retirada dos Estados Unidos de seu compromisso com a defesa da Europa e pela hostilidade europeia aos gastos militares, gerada pela recessão econômica. Para esse fim, prevíamos que poderia ser necessário dissolver o Pacto de Varsóvia, caso em que já havíamos preparado uma rede de acordos bilaterais de defesa a ser supervisionada por comitês secretos do Comecon."
Naturalmente, nem todos os seus planos se concretizaram exatamente da maneira que haviam imaginado. Esse era Jan Sejna, que desertou em 1968; era assim que ele compreendia a situação naquela época. Sabemos que nem tudo saiu conforme desejavam, mas era assim que pensavam. Eles dissolveram o Pacto de Varsóvia. Eles dissolveram a União Soviética. Eles derrubaram o Muro de Berlim.
É verdade que isso acabou se voltando contra eles em certa medida, mas permaneceram fiéis ao seu plano. Estão com a China. Estão com a Rússia. Estão na América Central. Estão na África. Estão expandindo sua influência sobre a América Latina. Basta acompanhar as notícias. Eles nunca desistiram. Nunca desistiram.
E como sabemos que nunca desistiram?
A queda do comunismo... O que há de errado com esta imagem? Vou lhes dar três segundos.
Aquela estátua de Lênin está sendo cuidadosamente baixada; ela não está sendo despedaçada.
Lembro-me de que um ex-oficial da KGB, que na época trabalhava em Viena, me disse:
"Sabíamos que tudo estava sob controle quando vimos aquela estátua sendo baixada com cuidado, delicadamente, sem ser destruída em pedaços."
Na verdade, não são apenas Golitsyn, eu e alguns poucos observadores que consideramos haver algo de errado com o golpe de agosto de 1991, que supostamente marcou o fim da União Soviética. Há também Yevgenia Albats, que questionou sua autenticidade. Ela é jornalista russa, e estes são apenas alguns pontos sobre suas posições.
Ela questionou a autenticidade do golpe de 1991. Acredita que políticos e a opinião pública não dispõem dos instrumentos necessários para superar um serviço secreto sofisticado e monolítico como a KGB. Afirma que a Rússia permaneceu um Estado policial mesmo sob Boris Yeltsin; que o Ocidente foi enganado pelas aparências democráticas da Rússia; que a Rússia atualmente se prepara para uma guerra contra os Estados Unidos; que Putin não teme travar essa guerra; e que a população russa é bombardeada por propaganda antiamericana vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
Foi isso que ela afirmou há apenas alguns anos. E agora, naturalmente, a Rússia já está em guerra, e seus exércitos avançam para o oeste.
As revoluções na Europa Oriental — foram dirigidas a partir de Moscou?
Eis alguns elementos para reflexão.
O documentarista Robert Buchar revelou que a Revolução de Veludo, ocorrida na Tchecoslováquia em 1989, foi conduzida por ordens vindas de Moscou. Andrei Codrescu, dissidente e desertor romeno, revelou em seu livro The Hole in the Flag que a derrubada de Nicolae Ceaușescu, na Romênia, foi realizada por agentes soviéticos infiltrados no governo e nas Forças Armadas.
Alega-se que o líder do movimento Solidariedade, Lech Wałęsa, era um agente da polícia secreta comunista sob o codinome "Bolek".
A Ucrânia passou por três revoluções anticomunistas após 1991, mas, em todas elas, o governo acabou revelando possuir uma composição de origem soviética, obrigando a revolução a recomeçar, até se chegar a 2014, com a Revolução da Dignidade.
E o que os russos fizeram então? Reagiram invadindo e anexando a Crimeia, invadindo o Donbass e, depois, em 2022, invadindo toda a Ucrânia, iniciando uma grande guerra na Europa.
Mas o comunismo não estaria morto? Dizem-nos que hoje restam apenas cinco países comunistas: a República Popular da China; a República Popular Democrática da Coreia; a República Socialista do Vietnã; a República Democrática Popular do Laos; e a República de Cuba.
Pois bem, vou argumentar que essa não é a realidade.
Eis uma lista de alguns antigos países marxistas que realizaram mudanças constitucionais de caráter enganoso ao final da Guerra Fria.
Primeiro, Angola, que passou pela encenação de adotar um sistema multipartidário, mas onde os comunistas do MPLA continuam no poder — um país que, aliás, permanece armado por Moscou.
O Zimbábue manteve seu ditador comunista.
Os comunistas sandinistas da Nicarágua concordaram em respeitar uma constituição democrática após a Guerra dos Contras, mas desde então derrubaram essa constituição e passaram a trabalhar em estreita colaboração com os russos e os cubanos.
Na Namíbia, que supostamente se tornou uma democracia multipartidária sob o comando da SWAPO, a realidade é que a SWAPO continua governando o país — e a SWAPO, naturalmente, é uma organização comunista.
Moçambique tornou-se praticamente uma colônia da China comunista, país que, evidentemente, foi tomado pelos comunistas na década de 1980.
Países conquistados pelos comunistas desde o fim da Guerra Fria:
No Nepal, após um período de guerra civil, assistimos à vitória do Partido Comunista Unificado do Nepal (Maoista).
Na Venezuela, a eleição de Hugo Chávez colocou o maior produtor de petróleo da América Latina em alinhamento com Cuba, Rússia e China.
Em 1997, rebeldes comunistas liderados por Laurent Kabila derrubaram o presidente Mobutu no Zaire, atual República Democrática do Congo.
Em 1994, o Congresso Nacional Africano (ANC) chegou ao poder na África do Sul. O ANC era — e continua sendo — controlado pelo Partido Comunista Sul-Africano. O país tornou-se, em essência, um Estado de partido único, comprometido com o socialismo e alinhado, adivinhem com quem: Rússia e China.
A Bolívia encontra-se sob a influência de Evo Morales, um marxista-leninista fanático.
A Rússia ainda é governada por comunistas?
Essa é uma pergunta interessante, e decisiva, porque muitas pessoas dizem: "Ora, não. Putin é um conservador. Putin é um nacionalista."
Pois bem, observemos o que a Rússia tem feito na esfera internacional.
A Rússia continua apoiando Estados e organizações comunistas em todo o mundo.
A Rússia apoia os sandinistas na Nicarágua, que estabeleceram uma ditadura socialista.
A Rússia apoia o regime socialista venezuelano respaldado por Cuba. Como vimos anteriormente, chegou inclusive a enviar tropas para a Venezuela.
A Rússia apoia Estados comunistas na África, como o Congo, Angola e o governo do Congresso Nacional Africano (ANC) na África do Sul.
E a Rússia estabeleceu uma aliança militar com a China comunista e com a Coreia do Norte comunista.
Desde abril de 2014, a mídia estatal russa vem alimentando a população do país com uma intensa campanha de antiamericanismo.
E esqueci de mencionar um detalhe nesta breve observação: a Rússia vem enviando grãos para Cuba, a Cuba comunista, e o governo comunista cubano tem agradecido aos russos por isso.
Assim, em todos os lugares do mundo onde existe um regime comunista, os russos estão oferecendo algum tipo de apoio e coordenando ações com a China, a Coreia do Norte e outros aliados.
Portanto, a pergunta é: o colapso do comunismo foi uma farsa?
Aqui vemos Bill Clinton, que, durante sua passagem pela universidade, tinha uma trajetória ligada ao radicalismo marxista, e ali está Boris Yeltsin, que foi membro candidato do Politburo soviético. Parece uma ocasião bastante alegre, não é?
Existe um provérbio da KGB que diz:
"Um gato com um sino pendurado no pescoço não consegue caçar ratos."
Muito bom, não é?
Voltemos à estratégia, ao Comitê Brezhnev que discutimos anteriormente.
A estratégia consistia em combinar a preparação para uma guerra nuclear — defendida pelo Marechal V. D. Sokolovsky no Comitê Brezhnev — com a estratégia de engano, segundo a qual o comunismo fingiria abandonar o poder. Essa era a estratégia do General Nikolai Mironov.
É exatamente isso que vemos, seja nos relatos de Golitsyn, de Sejna ou de outros desertores; seja nos acontecimentos que vimos se desenrolar; seja na forma como as revoluções efetivamente ocorreram na Europa Oriental; seja na maneira pela qual o comunismo continua a expandir sua influência na América Latina, na África e na Ásia.
Penso que essa estratégia continua em vigor.
Penso que a infiltração comunista nos Estados Unidos e na Europa Ocidental continua ocorrendo e que estamos sendo minados internamente.
Não se trata apenas dos exércitos da Rússia e da China; trata-se também da atuação dos espiões.
Lembrem-se da primeira parte: havia Martin Bormann, próximo de Adolf Hitler, sendo um agente soviético. Havia Harry Hopkins, próximo de Franklin Delano Roosevelt, sendo um agente soviético.
O que temos hoje no governo Biden? O que é isso?
E, naturalmente, esta é a pergunta que devemos fazer ao observar os russos e os líderes chineses: eles ainda acreditam no comunismo? Será que realmente acreditam?
Há uma pequena história muito interessante contada pelo físico dinamarquês Niels Bohr:
Um físico visita um colega e percebe uma ferradura pendurada na parede acima da porta de entrada.
— Você realmente acredita que uma ferradura traz sorte? — pergunta.
— Não — responde o colega —, mas me disseram que ela funciona mesmo para quem não acredita.
Esquecemos que o marxismo não é um sistema de crenças. Aquilo em que se acredita é uma estratégia — o poder da estratégia para remodelar a humanidade; o poder de um conjunto de ideias para conquistar as multidões, levando-as a acreditar que serão iguais, livres e que tudo se transformará em um paraíso na Terra.
Esse sonho, que corrói a alma até suas profundezas e transforma a política em um instrumento para salvar a humanidade, acaba, na realidade, convertendo os processos políticos em uma gigantesca disputa pelo poder.
É desse processo que surgem formações como a Federação Russa, a União Soviética, a China comunista, Cuba comunista e a Coreia do Norte, entre os novos Estados que se consolidam.
E vemos conceitos de governo socialista avançando por toda parte, e esse avanço é preocupante.
Agora vemos Vladimir Putin reunido com o então ministro da Defesa da China, Chi Haotian.
O General Chi encontrou-se com Putin em 18 de janeiro de 2000.
Chi revelou-se um importante estrategista e pensador do bloco comunista.
E vamos examinar algumas de suas ideias estratégicas.
Há cerca de vinte anos, o General Chi proferiu um discurso secreto. Nesse discurso, dirigido à elite dos quadros partidários, aos principais dirigentes do Partido Comunista Chinês, ele afirmou o seguinte:
"Os Estados Unidos nos permitiriam sair em busca de espaço vital?"
Observem que o General Chi afirma que a China sofre com superpopulação e necessita de espaço vital.
Prosseguindo com a citação:
"Primeiro, se os Estados Unidos nos bloquearem firmemente, quanto espaço vital conseguiremos obter? Muito pouco.
Somente países como os Estados Unidos possuem um território suficientemente vasto para atender às nossas necessidades de colonização em massa."
Em seguida, Chi prossegue afirmando que resolver a questão dos Estados Unidos é a chave para resolver todas as demais questões.
"Primeiro, isso tornará possível que um grande número de pessoas migre para lá e até mesmo estabeleça uma outra China sob a mesma liderança do Partido Comunista Chinês.
Assim, vocês compreenderão por que falamos constantemente, em voz alta, sobre a questão de Taiwan, mas não sobre a questão americana.
Todos nós conhecemos o princípio de fazer uma coisa sob a cobertura de fazer outra."
Mais adiante, em seu discurso, ele afirma:
"Uma montanha não permite que dois tigres vivam juntos."
Naturalmente, ao dizer isso, ele está se referindo aos Estados Unidos e à China — os dois tigres. Só pode haver um único tigre. Portanto, segundo ele, o tigre que será eliminado é a América.
Chegamos, assim, ao final.
Este foi Amigos e inimigos. Eu sou Jeff Nyquist, mais uma vez, e procurei lhes oferecer apenas um vislumbre desta ideia de que perdemos de vista quem são os nossos inimigos.
Também perdemos de vista o método empregado por esse inimigo para infiltrar-se e aproximar-se de nossos principais líderes.
E também perdemos de vista o fato de que esse inimigo possui uma grande estratégia, e que muitos dos acontecimentos da história recente fizeram parte dessa estratégia, algo que ainda não reconhecemos.
Ainda não percebemos que a China está produzindo armas nucleares e mísseis em ritmo industrial, que a Rússia renovou suas forças nucleares, enquanto nós não renovamos as nossas. E isso talvez não seja apenas uma coincidência. Talvez faça parte de um plano — o mesmo plano que inclui a infiltração de nosso país por pessoas que apoiam ideias socialistas e comunistas.
Quero, portanto, deixá-los com todas essas reflexões. Sei que há muita coisa para assimilar, mas espero que vocês se juntem a mim no futuro para o próximo episódio de Amigos e Inimigos.
Muito obrigado.
REFERÊNCIAS
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KILZER, Louis C. Hitler’s traitor: Martin Bormann and the defeat of the Reich. Novato: Presidio Press, 2000.
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